A travessia
Calunga Grande da necrópole ao berço de afro-utopias
Há duas semanas, encontro-me do outro lado do Atlântico. As construções em estilo enxaimel, que datam dos séculos XV a XVII, a beleza do rio Neckar e o clima intempestivo fazem parte do cenário do meu doutorado que se inicia. Cercada por estudantes do Sul Global, descobro como será esta nova fase, feliz pela oportunidade de fazer o que amo: aprender e ensinar.
No entanto, hoje gostaria de falar da travessia.
Calunga Grande
Enquanto voávamos na penumbra da noite, a pouca visualização oferecida pela janela me permitiu refletir sobre o entre-lugar representado pela travessia atlântica. Logo, recordei-me do livro “Calunga Grande: o transnacionalismo negro e o Brasil”, da professora Karine de Souza Silva, que li no ano passado.
Nele, conheci a história de Emiliano Mundrucu, ativista negro brasileiro que ajuizou ainda na década de 1830, com sua esposa Harriet Grant Jerdine, a primeira ação judicial contra a segregação racial nos transportes nos Estados Unidos. Para além de um trabalho primoroso de pesquisa histórica, jurídica e internacionalista, a leitura possibilita a ampliação do olhar sobre as relações internacionais e as lutas raciais durante o século XIX, contrariando a cronologia amplamente adotada que relaciona o contexto transnacional do ativismo negro ao século XX.
O título da obra faz referência a um termo derivado da língua bantu que é utilizado para designar 1. “grande oceano”; 2. “grande expansão”; 3. “oceano Atlântico” no contexto das rotas de comércio de pessoas africanas para a escravização. Logo na sua introdução, Karine reflete sobre a simbologia deste espaço-tempo:
“Cruzar o oceano foi como atravessar um portal metafísico, do não retorno, do irrevogável. Calunga foi a necrópole, onde inúmeros corpos sucumbiram. Mas foi, igualmente, um útero fecundo, lugar de renascimento, e uma arena política de disputa pela sobrevivência de um povo e sua história.” (de Souza Silva, 2025)
Uma das propostas do meu programa de doutorado é fugir de análises simplistas ou binaristas sobre fenômenos e processos sociais. Muito mais do que olhar para as violências históricas, também buscamos trazer visibilidade para os movimentos de resistência e luta dos/das sujeitos/sujeitas marginalizados. Vejo no trecho de Karine uma perspectiva semelhante.
Revisitei muitas lembranças e pensei acerca dos significados que já atribuí ao Calunga Grande. Confabulei sobre a travessia realizada pelos meus antepassados em um contexto de violência, tortura e desumanização. Senti-me muito privilegiada pela possibilidade de viver o tempo presente, sobrevoando este território em outra direção com dignidade e sonhos.
2001
Há muitos anos, afasto-me das teorias que apresentam a história como um avanço contínuo e gradual. Em meio ao genocídio palestino, às ameaças de guerra por homens irresponsáveis que ocupam cargos de poder e às perseguições sexistas, homofóbicas, racistas e aporofóbicas de alguns setores sociais e políticos, não há como olhar para trás e não reconhecer que estivemos em contextos melhores. No entanto, também constato os avanços que o tempo presente oferece e o progresso que os movimentos sociais originaram.
Lembrei-me das palavras da escritora portuguesa/angolana Djaimilia Pereira de Almeida que tanto me marcaram quando li “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”.
“O meu maior privilégio imerecido é ter nascido em 1982. Não é ter tido uma educação, ter sido amada e protegida pela minha família. Não é a habitação, ou sequer o acesso à saúde. A data do meu nascimento é o meu maior privilégio. Peso cada palavra. Houvesse eu nascido setenta anos antes, e não haveria lugar para estas linhas, ou para qualquer dos meus livros. Fosse eu uma mulher negra da geração da minha avó, ou mesmo da geração da minha mãe, e o meu destino seria outro. Durante muito tempo, imaginei que escrevia para não desperdiçar a minha vida. Não vivo de escrever, mas escrever é quem sou. Morreria, caso não pudesse escrever, e viveria uma vida de tortura, caso fosse impedida de o fazer, ou se não lograsse encontrar quem me lesse. Caso não pudesse escrever — peso cada palavra —, sucumbiria à tristeza, e é muito provável que enlouquecesse. Houvesse eu nascido setenta, oitenta anos antes, talvez até apenas cinquenta, tivesse eu a mesma inclinação, e o meu destino seria, com sorte, a cozinha, a vassoura, a roça. O meu maior privilégio é este tempo, o meu. Nunca antes na História uma mulher como sou podia aspirar a um destino semelhante ao que vivo.”
Venho de uma família interracial de classe trabalhadora. Nenhum dos meus avós completou a escola e quase todos trabalharam até morrer. Minha avó, especialmente, foi uma mulher negra que, mesmo com poucas possibilidades de estudar, sempre escrevia pequenos poemas e bilhetes e os colocava nos bolsos e nas carteiras dos filhos. O acesso à educação poderia ter oferecido uma trajetória distinta. Hoje, honro seus legados agarrando as possibilidades de expandir meus horizontes intelectuais e acadêmicos.
Somos uma geração que escreve novos capítulos, originando novos sentidos e significantes para este território. Para nós, Calunga Grande deixa de ser apenas uma necrópole, mas também é berço de afro-utopias do presente.











Amei! Animada pra acompanhar essa nova fase!